quinta-feira, 28 de agosto de 2008

um escrito a( )penas

E por quanto tempo ali estivera sem se dar conta – sem dar conta de si?
Deus me livre de mim – rezava com fé de quem pede o impossível.
Havia aprendido por constatação que seu maior medo era de ser humano.
Havia também guardado com cuidado as chaves que a vida lhe dera em sua árida trajetória repleta de guerras e mortes íntimas. Mas, uma vez, havia experimentado o amor.
Amor tem gosto de água que se bebe de filtro de barro e aos olhos tem cor de sol e brilha de cegar a gente e deixar sem ar quando faz parar o tempo e se confessa em silêncio e se declara no olhar. Blagh blagh blagh – já era crescida suficiente para saber que quem uma vez experimentou amor, experimentaria a segunda e seria tudo diferente. E assim por diante.
O fato é que catava os cacos no fundo do seu coração penhasco.
E pra quê ia pensar tanto tão pequenina?
Não ia afinal desvendar sua sina pensando tanto.
Foi quando: Nada!
Simplesmente nada aconteceu – nem um pensamento - nada!
Ficou tudo parado.
Assim: de uma hora pra outra – de repente.
E assim permaneceu por um bom tempo: toda em silêncio.
E tudo em volta. Só. Silêncio. Até que: nada.
Tentou mais uma vez: nada. Estava presa.
Não conseguia abrir mão, abandonar aquele silêncio que havia se tornado sua casca – tornara-se sua carne, seu próprio corpo e sua pele branca como morte sem doença. No universo paralelo dentro do seu estômago havia uma revolução e rebeldes desafiavam a polícia com pedras e bombas de fabricação caseira. Então começou no interior da sua cabeça um concerto de heavy metal com espasmos de música clássica.
Desmaiou! Não, não conseguiu – tentara com todas as forças desmaiar-se, mas permaneceu lúcida atormentada perplexa e sem coordenação. E mais um mundo caiu. Mais uma cabeça rolou. E o vento ventou acordes de falta em harmonia distorcida, cicatrizada. E a falta do que fazer em todo o redor - a falta de qualquer coisa ou qualquer falta. Olhou-se no espelho e o que viu não lhe espantou: natureza morta. Antiquíssima. Mais antiga que o espanto que sempre lhe acometera por saber-se bípede num planeta redondo e ainda ter que respirar ao mesmo tempo.
Desabou: é que às vezes uma mudança de lua, me deixa toda mexida...
Noutras, quando mênstruo, fico toda misturada...
E por minha vez, aviso: estou vivendo! Eu sou vivendo!
O tempo inteiro enquanto respiro, vivo! E erro.
Erro existencialmente por não saber respirar direito.
Respirar cansa - a mim me cansa.
É isso.
Por hora.
É isso agora.
Depois muda.
Como muda de planta...
Entende?