foi por não saber desenhar, que, em silêncio assisti a chuva escorrendo no vidro pelo lado de fora da janela. por não saber desenhar, meus olhos também choveram. por não saber desenhar, acabei engolindo palavras de gosto duvidoso e vomitando as que mais gostava. também por não saber desenhar, vi secar secar o olhar que sempre me viu com carinho. e por não saber desenhar me lembro de todas as flores. por não saber desenhar, às vezes me perco de mim - em mim. e por não saber desenhar me lanço no mundo a vagar quando me faltam palavras. por não saber desenhar, faço triste quem gosto de. é por não saber desenhar que me sinto pequenininha. por não saber desenhar, é que olho o céu quando não entendo. por não saber desenhar, não posso ler partitura. é por não saber desenhar que calo-me consternada.
e por não saber desenhar, vejo dois corações partidos.
terça-feira, 16 de dezembro de 2008
quarta-feira, 8 de outubro de 2008
a( i)lusão
.
Caracóis alados em iluminados cotornos de padra sabão,
suspeitos se espreitam se espetam derretem e(m) vão.
.
Caracóis alados em iluminados cotornos de padra sabão,
suspeitos se espreitam se espetam derretem e(m) vão.
.
terça-feira, 7 de outubro de 2008
devanéia
Sambando
De salto alto
Na janela
Do quinto andar
Naquela tarde
Tão quente
Ela decidiu
Pular
E a galera
Lá embaixo torcia
Morena,
Pula de cabeça
Na bacia, morena
Pula de cabeça
Na bacia, morena
Pula Devanéia!
De salto alto
Na janela
Do quinto andar
Naquela tarde
Tão quente
Ela decidiu
Pular
E a galera
Lá embaixo torcia
Morena,
Pula de cabeça
Na bacia, morena
Pula de cabeça
Na bacia, morena
Pula Devanéia!
quinta-feira, 2 de outubro de 2008
a seguir cenas do próximo capítulo
...
Algumas pessoas remetem à televisão ligada:
Não importa o que você diga:
Nada interfere na programação:
...
Algumas pessoas remetem à televisão ligada:
Não importa o que você diga:
Nada interfere na programação:
...
terça-feira, 30 de setembro de 2008
segunda-feira, 29 de setembro de 2008
vale a pena
quando venta forte...
quando a lua aparece...
quando o bolero é de ravel...
quando há rede na varanda...
quando a gente é de verdade...
quando a lua aparece...
quando o bolero é de ravel...
quando há rede na varanda...
quando a gente é de verdade...
domingo, 28 de setembro de 2008
sem querer
Eu fico querendo
Você perto de mim
Eu fico assim
E sem querer
Eu fico querendo
Saber
Eu fico querendo
Te ver
E ouvir você
Se desmanchando
De prazer
Ao meu ouvido
Eu fico aturdida
De amor
Por você
Você perto de mim
Eu fico assim
E sem querer
Eu fico querendo
Saber
Eu fico querendo
Te ver
E ouvir você
Se desmanchando
De prazer
Ao meu ouvido
Eu fico aturdida
De amor
Por você
sábado, 27 de setembro de 2008
eu acredito
Girabelhinha
Uma abelha dessas pequeninas
Pousou numa foto de uma flor
E um romance todo feito em cores
Foi se revelando, fez-se amor
Carregou a foto pra colméia
E explicou o caso pra rainha
Essa que era sábia foi dizendo
"Será que você tá piradinha?
Esse girassol aí não vale nada
É bonito mas não passa de um papel
Nunca vai lhe dar perfume, pólen, filhos
E aqui nós precisamos é de mel"
Embrulhou a foto e suas roupinhas
E saiu em busca de um cantinho
Pra viver seu sonho de verdade
Sem rainhas pra encher seu saquinho
Hoje existe um lugar na Terra
Onde há girassóis que têm asinhas
E abelhas que voam com pétalas
Num mundo novo
Cheio de girabelhinhas
Loni Andrade
Uma abelha dessas pequeninas
Pousou numa foto de uma flor
E um romance todo feito em cores
Foi se revelando, fez-se amor
Carregou a foto pra colméia
E explicou o caso pra rainha
Essa que era sábia foi dizendo
"Será que você tá piradinha?
Esse girassol aí não vale nada
É bonito mas não passa de um papel
Nunca vai lhe dar perfume, pólen, filhos
E aqui nós precisamos é de mel"
Embrulhou a foto e suas roupinhas
E saiu em busca de um cantinho
Pra viver seu sonho de verdade
Sem rainhas pra encher seu saquinho
Hoje existe um lugar na Terra
Onde há girassóis que têm asinhas
E abelhas que voam com pétalas
Num mundo novo
Cheio de girabelhinhas
Loni Andrade
quinta-feira, 25 de setembro de 2008
quinta-feira, 18 de setembro de 2008
faz de conta
Agora sou eu
Quem não quer mais
Eu gosto de você
E isso tanto faz
Tanto faz isso
Como tanto fez
Fiquei fácil
Fiquei tonta
E até perdi a vez
Na hora de falar
Desarticulada
Eu hesitei
E quando
Era pra calar
A minha boca grande
Eu não aguentei
E quis te levar
Pr'um chalé
Beber vinho
Ouvir jazz
Ascender lareira
Então conhecer
Seus encantos
Seus cantos
Seus contos
Da vida inteira
Até procurei
Outra rima
Debaixo da cama
Dentro da piscina
Mas o ponto onde
Tudo culmina
É em você
Princesa
Do meu
Era uma vez
Quem não quer mais
Eu gosto de você
E isso tanto faz
Tanto faz isso
Como tanto fez
Fiquei fácil
Fiquei tonta
E até perdi a vez
Na hora de falar
Desarticulada
Eu hesitei
E quando
Era pra calar
A minha boca grande
Eu não aguentei
E quis te levar
Pr'um chalé
Beber vinho
Ouvir jazz
Ascender lareira
Então conhecer
Seus encantos
Seus cantos
Seus contos
Da vida inteira
Até procurei
Outra rima
Debaixo da cama
Dentro da piscina
Mas o ponto onde
Tudo culmina
É em você
Princesa
Do meu
Era uma vez
segunda-feira, 15 de setembro de 2008
origem do próprio nome
Clarice
Há muita gente
Apagada pelo tempo
Nos papéis desta lembrança
Que tão pouco me ficou
Igrejas brancas
Luas claras na varandas
Jardins de sonho e cirandas
Foguetes claros no ar
Que mistério tem Clarice
Que mistério tem Clarice
Pra guardar-se assim tão firme
No coração
Clarice era morena
Como as manhãs são morenas
Era pequena no jeito
De não ser quase ninguém
Andou conosco caminhos
De frutas e passarinhos
Mas jamais quis se despir
Entre os meninos e os peixes
Entre os meninos e os peixes
Entre os meninos e os peixes
Do rio, do rio
Que mistério tem Clarice
Que mistério tem Clarice
Pra guardar-se assim tão firme
No coração
Tinha receio do frio
Medo de assombração
Um corpo que não mostrava
Feito de adivinhação
Os botões sempre fechados
Clarice tinha o recato
De convento e procissão
Eu pergunto o mistério
Que mistério tem Clarice
Pra guardar-se assim tão firme
No coração
Soldado fez continência
O coronel reverência
O padre fez penitência
Três novenas e uma trezena
Mas Clarice era a inocência
Nunca mostrou-se a ninguém
Fez-se modelo das lendas
Fez-se modelo das lendas
Das lendas que nos contaram as avós
Que mistério tem Clarice
Que mistério tem Clarice
Pra guardar-se assim tão firme
No coração
Tem que um dia amanhecia
E Clarice assistiu minha partida
Chorando pediu lembranças
E vendo o barco se afastar de Amaralina
Desesperadamente linda
Soluçando e lentamente
E lentamente despiu o corpo moreno
Dentre todos os presentes
Até que seu amor sumisse
Permaneceu no adeus
Chorando e nua
Para que a tivesse toda
Todo o tempo que existisse
Que mistério tem Clarice
Que mistério tem Clarice
Pra guardar-se assim tão firme
No coração
Caetano Veloso e Capinan
Há muita gente
Apagada pelo tempo
Nos papéis desta lembrança
Que tão pouco me ficou
Igrejas brancas
Luas claras na varandas
Jardins de sonho e cirandas
Foguetes claros no ar
Que mistério tem Clarice
Que mistério tem Clarice
Pra guardar-se assim tão firme
No coração
Clarice era morena
Como as manhãs são morenas
Era pequena no jeito
De não ser quase ninguém
Andou conosco caminhos
De frutas e passarinhos
Mas jamais quis se despir
Entre os meninos e os peixes
Entre os meninos e os peixes
Entre os meninos e os peixes
Do rio, do rio
Que mistério tem Clarice
Que mistério tem Clarice
Pra guardar-se assim tão firme
No coração
Tinha receio do frio
Medo de assombração
Um corpo que não mostrava
Feito de adivinhação
Os botões sempre fechados
Clarice tinha o recato
De convento e procissão
Eu pergunto o mistério
Que mistério tem Clarice
Pra guardar-se assim tão firme
No coração
Soldado fez continência
O coronel reverência
O padre fez penitência
Três novenas e uma trezena
Mas Clarice era a inocência
Nunca mostrou-se a ninguém
Fez-se modelo das lendas
Fez-se modelo das lendas
Das lendas que nos contaram as avós
Que mistério tem Clarice
Que mistério tem Clarice
Pra guardar-se assim tão firme
No coração
Tem que um dia amanhecia
E Clarice assistiu minha partida
Chorando pediu lembranças
E vendo o barco se afastar de Amaralina
Desesperadamente linda
Soluçando e lentamente
E lentamente despiu o corpo moreno
Dentre todos os presentes
Até que seu amor sumisse
Permaneceu no adeus
Chorando e nua
Para que a tivesse toda
Todo o tempo que existisse
Que mistério tem Clarice
Que mistério tem Clarice
Pra guardar-se assim tão firme
No coração
Caetano Veloso e Capinan
balanço
O rio, de tão doce, está aguado.
O mar, de tão aguado, até salgou.
Minha esperança, de tão passada, virou areia.
E nossa história, de tão cansada, virou paisagem.
O mar, de tão aguado, até salgou.
Minha esperança, de tão passada, virou areia.
E nossa história, de tão cansada, virou paisagem.
terça-feira, 9 de setembro de 2008
sábado, 6 de setembro de 2008
terça-feira, 2 de setembro de 2008
mexirica e manjericão
A - Estava pensando...
B - Hum.
A - É...
B - O quê?
A - Não sei, eu estava pensando...
B - Em quê?
A - Ai, não sei. É difícil falar...
B - Falar o quê? Que coisa!
A - Cabide rima com panela?
B - Como assim, cabide, panela?
A - É, tipo café rima com cigarro, domingo rima com cinema,
será que cabide rima com panela?
B - Sei lá...
A - Me ajuda a rimar?
B - O quê? Cabide com panela?
A - É! Cabide com panela!
B - Mas cabide com panela é mais difícil que mexirica com manjericão!
A - Nossa! Mexirica com manjericão é a rima perfeita!
B - Ah, a rima perfeita... Você pode por gentileza me apresentar uma não rima?
A - Palmito com chocolate, não rima!
(Risos)
B - Tem razão! Palmito não rima com chocolate!
(Mais risos)
A - Ai ai... Quer ouvir uma poesia?
B - Hum hum.
A - Mais bonito que um relógio sem ponteiros é uma gaiola vazia.
(Silêncio espesso)
A - Eu queria tocar violão...
B - Então toca, ué!
A - Eu não sei tocar.
B - Mas você tem um violão...
A - É que achei que sabia...
B - Sei como...
A - Sabe?
B - O quê?
A - Sabe como, mesmo?
B - Ah, mesmo, mesmo, eu não sei se sei.
A - Sei como...
B - Sabe?
A - Ah, vai saber...
B - Você ouve vozes?
A - Vozes não, frases.
B - Ouve frases?
A - Todo o tempo.
B - Frases sem vozes?
A - Talvez a voz do pensamento...
B - O pensamento - definido no singular - os pensamentos não tem vozes?
A - É como se o pensamento fosse um composto fluido de frases independentes, latentes, e com personalidades e mensagens completamente distintas...
B - Nossa! Deve ser pior que ouvir vozes...
B - Hum.
A - É...
B - O quê?
A - Não sei, eu estava pensando...
B - Em quê?
A - Ai, não sei. É difícil falar...
B - Falar o quê? Que coisa!
A - Cabide rima com panela?
B - Como assim, cabide, panela?
A - É, tipo café rima com cigarro, domingo rima com cinema,
será que cabide rima com panela?
B - Sei lá...
A - Me ajuda a rimar?
B - O quê? Cabide com panela?
A - É! Cabide com panela!
B - Mas cabide com panela é mais difícil que mexirica com manjericão!
A - Nossa! Mexirica com manjericão é a rima perfeita!
B - Ah, a rima perfeita... Você pode por gentileza me apresentar uma não rima?
A - Palmito com chocolate, não rima!
(Risos)
B - Tem razão! Palmito não rima com chocolate!
(Mais risos)
A - Ai ai... Quer ouvir uma poesia?
B - Hum hum.
A - Mais bonito que um relógio sem ponteiros é uma gaiola vazia.
(Silêncio espesso)
A - Eu queria tocar violão...
B - Então toca, ué!
A - Eu não sei tocar.
B - Mas você tem um violão...
A - É que achei que sabia...
B - Sei como...
A - Sabe?
B - O quê?
A - Sabe como, mesmo?
B - Ah, mesmo, mesmo, eu não sei se sei.
A - Sei como...
B - Sabe?
A - Ah, vai saber...
B - Você ouve vozes?
A - Vozes não, frases.
B - Ouve frases?
A - Todo o tempo.
B - Frases sem vozes?
A - Talvez a voz do pensamento...
B - O pensamento - definido no singular - os pensamentos não tem vozes?
A - É como se o pensamento fosse um composto fluido de frases independentes, latentes, e com personalidades e mensagens completamente distintas...
B - Nossa! Deve ser pior que ouvir vozes...
quinta-feira, 28 de agosto de 2008
um escrito a( )penas
E por quanto tempo ali estivera sem se dar conta – sem dar conta de si?
Deus me livre de mim – rezava com fé de quem pede o impossível.
Havia aprendido por constatação que seu maior medo era de ser humano.
Havia também guardado com cuidado as chaves que a vida lhe dera em sua árida trajetória repleta de guerras e mortes íntimas. Mas, uma vez, havia experimentado o amor.
Amor tem gosto de água que se bebe de filtro de barro e aos olhos tem cor de sol e brilha de cegar a gente e deixar sem ar quando faz parar o tempo e se confessa em silêncio e se declara no olhar. Blagh blagh blagh – já era crescida suficiente para saber que quem uma vez experimentou amor, experimentaria a segunda e seria tudo diferente. E assim por diante.
O fato é que catava os cacos no fundo do seu coração penhasco.
E pra quê ia pensar tanto tão pequenina?
Não ia afinal desvendar sua sina pensando tanto.
Foi quando: Nada!
Simplesmente nada aconteceu – nem um pensamento - nada!
Ficou tudo parado.
Assim: de uma hora pra outra – de repente.
E assim permaneceu por um bom tempo: toda em silêncio.
E tudo em volta. Só. Silêncio. Até que: nada.
Tentou mais uma vez: nada. Estava presa.
Não conseguia abrir mão, abandonar aquele silêncio que havia se tornado sua casca – tornara-se sua carne, seu próprio corpo e sua pele branca como morte sem doença. No universo paralelo dentro do seu estômago havia uma revolução e rebeldes desafiavam a polícia com pedras e bombas de fabricação caseira. Então começou no interior da sua cabeça um concerto de heavy metal com espasmos de música clássica.
Desmaiou! Não, não conseguiu – tentara com todas as forças desmaiar-se, mas permaneceu lúcida atormentada perplexa e sem coordenação. E mais um mundo caiu. Mais uma cabeça rolou. E o vento ventou acordes de falta em harmonia distorcida, cicatrizada. E a falta do que fazer em todo o redor - a falta de qualquer coisa ou qualquer falta. Olhou-se no espelho e o que viu não lhe espantou: natureza morta. Antiquíssima. Mais antiga que o espanto que sempre lhe acometera por saber-se bípede num planeta redondo e ainda ter que respirar ao mesmo tempo.
Desabou: é que às vezes uma mudança de lua, me deixa toda mexida...
Noutras, quando mênstruo, fico toda misturada...
E por minha vez, aviso: estou vivendo! Eu sou vivendo!
O tempo inteiro enquanto respiro, vivo! E erro.
Erro existencialmente por não saber respirar direito.
Respirar cansa - a mim me cansa.
É isso.
Por hora.
É isso agora.
Depois muda.
Como muda de planta...
Entende?
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