terça-feira, 3 de março de 2009

devaneei

- Eu às vezes tenho um estranhamento tão grande - o mundo inteiro me parece alheio. Ou eu a ele. Este momento é repleto de sensações que, embora familiares, me são irremediavelmente indescritíveis. E sou completamente tomada por elas - do juízo até o último poro - então, a constatação da loucura! Ímpeto arrebatador de falar, falar, falar, falar até esvaziar tudo.
Precisão do completo vazio, como se o nada fosse sua morada - como se tivesse sido gerada do cruzamento entre o nada e o silêncio. Para completar, a garantia da incompreensão. Ninguém, ninguém jamais saberia do que estava falando - se realmente falasse. Fugira-lhe a poesia. Faltavam-lhe o verso e a bossa. Sentia-se nebulosa - pensava-se esquizofrênica (o que talvez não fosse o diagnóstico preciso) mas era assim que se sentia. Era invadida por pensamentos cuja origem lhe era duvidosa. Seriam seus, os pensamentos? vozes vindas de dentro da sua cabeça querendo falar por ela - falar no seu lugar. Tentava em vão defender-se, buscar a origem, o destino a intenção dos pensamentos que a contaminavam. Tinha a nítida impressão de que seria mantida em cativeiro pelo que corria no fundo do que havia de mais dentro dela(?). Flertou a planta na janela, iluminada pelo pequeno abajur. Sentiu-se acolhida pela pequena passiflora, que despertou nela a ternura que parecia ter-se esvaído. Conversou muito com a plantinha; e se entendeu um pouco: assimilara alguns padrões de comportamento que não lhe eram inerentes antes dos relacionamentos anteriores. Desejou cobrir-se de astromélias e deitar-se no chão. Desejou o céu - em tons pastéis e semitons menores. Lembrou-se da poesia em sua constituição e sentiu apertar o peito como quem recebe um abraço dum urso.

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